Por Sandrinha Lesbaupin
O mundo do trabalho está atravessando uma transformação profunda, que vai muito além das mudanças tecnológicas costumeiramente destacadas. A cada ano surgem novas profissões, habilidades são reinventadas, expectativas mudam e, mesmo assim, a pergunta essencial permanece a mesma: como encontrar um caminho profissional que faça sentido? Essa busca, que já foi tratada como um ritual rápido e definitivo, hoje exige reflexão contínua, autoconhecimento e coragem para revisitar escolhas ao longo da vida.
Durante muito tempo, imaginar o futuro profissional significava responder a um teste vocacional, comparar algumas listas de cursos e seguir adiante. Esse modelo, que funcionava razoavelmente bem em um mercado estável e previsível, não acompanha a complexidade do mundo atual. Hoje, ninguém escolhe apenas uma profissão; escolhe um modo de viver, um tipo de rotina, um conjunto de valores e um estilo de existência que precisam dialogar com quem a pessoa é e com quem deseja se tornar.
No meu consultório, a pergunta não é mais “o que você quer fazer?”, mas “qual é o seu projeto de vida futuro?”.
O avanço da tecnologia, da inteligência artificial e da automação trouxe novas possibilidades, mas também ampliou as incertezas. Profissões surgem e desaparecem com velocidade, e a sensação de instabilidade gera ansiedade tanto em jovens que estão começando quanto em adultos que, pela primeira vez, se veem questionando caminhos que antes pareciam definitivos. A presença da IA, tão comentada, nos leva a um ponto interessante: quanto mais o mundo se automatiza, mais ganham valor as competências que nenhuma máquina consegue entregar, como consciência de si, criatividade aplicada, pensamento crítico, comunicação empática e capacidade de construir relações de confiança.
É comum ouvir pais e educadores dizendo que os jovens têm “muitas opções” e mesmo assim parecem perdidos. A verdade é que o excesso de possibilidades não traz necessariamente liberdade; ele muitas vezes gera paralisia. O medo de errar, de escolher um curso que não atenda às expectativas, de não corresponder ao que a família imagina, ou de fazer algo “menos interessante” que os colegas, interfere diretamente na capacidade de decidir. E, entre adultos, a sensação de inadequação aumenta quando surge a necessidade de recomeçar depois de muitos anos. Existe uma cobrança silenciosa para que a carreira seja linear, quando na prática ela é construída em espirais, ciclos e reinterpretações constantes.
O que procuro mostrar é que mudar não é sinônimo de desorganização ou fracasso. É parte natural do desenvolvimento humano. Cada escolha que fazemos carrega pedaços da nossa história, mas também abre espaço para novas possibilidades. A transição de carreira, em qualquer idade, é um processo legítimo de maturidade e expansão, não um retrocesso. E, quando encarada com intencionalidade, pode ser uma das fases mais ricas da vida profissional.
Mesmo em meio a tantas transformações, alguns pilares permanecem sólidos. Profissionais capazes de aprender continuamente, comunicar-se com clareza, trabalhar de forma colaborativa, lidar com incertezas e construir relações saudáveis continuarão sendo essenciais – em qualquer cenário. São essas habilidades que sustentam trajetórias mais longas e mais coerentes, independentemente da área escolhida.
Quando olhamos para o futuro, percebemos que ele será cada vez mais híbrido, multidisciplinar e dinâmico. Áreas tecnológicas seguirão crescendo, mas também veremos expansão nas profissões ligadas ao cuidado, à saúde mental, à sustentabilidade, à criatividade e à resolução de problemas complexos. Em um mundo mais digital, o diferencial será justamente quem souber oferecer a profundidade humana.
Para quem está começando ou recomeçando, a melhor orientação é cultivar presença e curiosidade. Não é necessário ter todas as respostas agora. É necessário ter disposição para se escutar, observar seus interesses reais, ajustar rotas quando preciso e construir uma vida profissional que dialogue com seus valores e com o seu perfil profisisonal. A carreira que vale a pena é aquela que cresce junto com você.
No fim das contas, falar sobre futuro do trabalho é falar sobre futuro de vida. Não existe escolha perfeita, mas existe escolha possível, consciente, honesta e alinhada ao que importa de verdade. E é nesse ponto que a orientação profissional se torna tão relevante: ela não oferece um destino pronto, mas ajuda cada pessoa a desenhar o seu próprio caminho com clareza, autonomia e autenticidade – em todos os momentos que a vida, o mercado ou você memso demandar ajustes.
Sandra Lesbaupin é psicóloga e especialista em orientação profissional e de carreira. Fundadora da TransformAção, atua há anos ajudando jovens e adultos a construírem trajetórias coerentes com seus valores, talentos e modo de viver. Sua abordagem integra autoconhecimento, tendências de mercado e escolhas conscientes para que cada pessoa encontre um caminho que faça sentido hoje e continue fazendo sentido ao longo da sua vida.










