Adolescência e TDAH

O impacto silencioso das telas e o alerta que os pais não podem ignorar

Por Cinthia Catellan
Neuropsicóloga e Neurocientista da Infância e Adolescência, especialista em TDAH

A adolescência já é, por natureza, uma travessia intensa. O corpo muda, os sentimentos explodem, o senso de identidade se reinventa a cada manhã. É uma fase de transformações profundas e também de vulnerabilidades. Quando falamos de adolescentes com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), essa intensidade ganha contornos ainda mais delicados.

O TDAH se apresenta de maneiras novas ao longo da vida, e na adolescência, pode se tornar ainda mais desafiador. Nessa fase, o cérebro está em plena reorganização. E para quem tem TDAH, funciona de forma diferente: há um atraso no amadurecimento de áreas essenciais, como o córtex pré-frontal, responsável pelo foco, pelo controle de impulsos e pelo planejamento.

Enquanto os adolescentes neurotípicos começam a ganhar mais clareza sobre consequências, autocontrole e prioridades, muitos adolescentes com TDAH ainda lutam para organizar pensamentos, resistir a impulsos ou manter a atenção mesmo em atividades que antes eram prazerosas.

Agora imagine esse cenário somado à presença constante (e muitas vezes descontrolada) das telas. Pesquisas recentes vêm mostrando o que, na prática clínica, já é sentido há anos. O uso abusivo de tecnologias digitais está diretamente relacionado ao aumento de sintomas de TDAH. Um estudo da JAMA publicado em 2018 acompanhou adolescentes por dois anos e revelou que o uso intenso de mídias digitais dobrou a chance de surgimento de sintomas típicos do transtorno, mesmo em jovens sem diagnóstico anterior.

No caso daqueles que já convivem com o TDAH, os riscos se ampliam. A busca incessante por estímulos rápidos, o prazer imediato, a dificuldade de lidar com o tédio… Tudo isso se combina ao apelo das redes sociais, dos vídeos curtos, dos jogos incessantes. O resultado? Mais irritabilidade, menos sono de qualidade, menos foco e mais sobrecarga emocional.

Mas talvez o que mais assuste não esteja nos dados clínicos, e sim no comportamento social que vem sendo normalizado. Pais que, por estarem exaustos ou sem alternativas, dizem coisas como “pelo menos ele está quieto no celular” ou “é o único momento em que ela se distrai”. O problema é que essa distração está custando caro.

O tempo de tela, quando desregulado, tem um preço que não aparece de imediato. Vai se manifestando na dificuldade crescente de concentração, nas explosões emocionais aparentemente “sem motivo”, na baixa autoestima que se alimenta da comparação constante com a vida editada dos outros nas redes. Vai corroendo a curiosidade genuína, o prazer pelas interações presenciais, o vínculo com a própria família.

É claro que o problema não está na tecnologia em si. Mas na ausência de mediação, de presença, de conversas sinceras sobre o que está acontecendo ali. Pais que não monitoram ou não se envolvem na vida digital de seus filhos perdem um território inteiro da realidade deles. E, muitas vezes, só percebem o impacto quando a escola liga, quando o sono desaparece, quando o adolescente se fecha por completo.

Se existe um momento em que ainda é possível construir novos caminhos, esse momento é agora. A adolescência é uma janela poderosa de desenvolvimento – e também de prevenção. Cuidar de um filho com TDAH não é apenas oferecer tratamento ou acolhimento. É também estabelecer limites, mesmo que isso gere conflito. É dizer “não” com amor. É educar para que, no futuro, ele ou ela saiba dizer “sim” à própria saúde mental.

Ignorar os efeitos das telas hoje pode significar abrir mão de uma vida mais equilibrada amanhã. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de ensinar a navegar por ela com consciência. E essa consciência, em boa parte, começa em casa.

Se você sente que está difícil, que seu filho ou filha está imerso demais no mundo digital e cada vez mais distante de si mesmo, talvez seja hora de repensar os acordos, os horários, os hábitos. E, principalmente, de buscar apoio. Porque, sim, há saída. Mas ela começa com um gesto simples – e corajoso: olhar de verdade para o que está acontecendo.

Se esse tema interessa a você, assista agora ao episódio do DnP sobre TDAH com a Dra. Cinthia Catellan:

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