Por Dr. Fernando Duarte, psiquiatra
Nos últimos anos, substâncias que durante décadas foram alvo de preconceito e marginalização voltaram ao centro das discussões científicas e médicas. Estamos falando dos psicodélicos.
Ayahuasca, psilocibina (presente nos chamados “cogumelos mágicos”), MDMA (mais conhecido como ecstasy) e LSD não são novidades para a humanidade. Muitos deles já eram usados em contextos ancestrais, espirituais e ritualísticos. A diferença é que, hoje, essas substâncias estão sendo estudadas com seriedade por universidades e centros de pesquisa de renome em todo o mundo, como alternativas para o tratamento de condições de saúde mental que muitas vezes não respondem bem aos métodos tradicionais.
Onde a ciência já avançou
Países como Austrália, Suíça e Canadá já aprovaram o uso controlado de alguns psicodélicos em contextos clínicos. Nessas nações, pacientes com depressão resistente, ansiedade grave, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e até mesmo dependência química têm sido tratados com protocolos que combinam a substância com acompanhamento psicoterápico.
Os resultados iniciais são animadores: estudos mostram melhora significativa dos sintomas em pessoas que, após anos de medicações convencionais, ainda sofriam com sofrimento intenso. Vale destacar que o uso é sempre supervisionado, em ambientes controlados e dentro de pesquisas ou tratamentos autorizados.
O preconceito ainda é um desafio
Apesar dos avanços, o tema continua cercado de tabus. Parte disso vem da associação cultural dos psicodélicos com o uso recreativo descontrolado. Outro fator é a comparação com drogas lícitas como o álcool, que, embora aceito socialmente, causa inúmeros danos à saúde física e mental. Essa disparidade ajuda a reforçar a ideia de que precisamos discutir o tema sem preconceitos, baseados em dados e evidências.
E no Brasil?
Aqui, pesquisas também vêm sendo conduzidas, principalmente em universidades, com foco em entender os efeitos e potenciais terapêuticos dessas substâncias. Entretanto, ainda não há previsão para a aprovação de protocolos clínicos como já ocorre em outros países.
Isso significa que, no Brasil, o uso terapêutico dos psicodélicos ainda é restrito ao campo científico. É fundamental que essa caminhada seja feita com cautela, responsabilidade e regulamentação adequada, sempre priorizando a segurança do paciente.
Conclusão
A discussão sobre psicodélicos exige mente aberta, mas também prudência. Não se trata de defender o uso indiscriminado dessas substâncias, mas de reconhecer que a ciência está diante de um campo promissor, capaz de transformar o tratamento de doenças mentais graves e refratárias.
O que precisamos, como sociedade, é substituir o preconceito pela informação e acompanhar com seriedade os avanços que a medicina já começa a revelar.
Dr. Fernando Duarte é médico psiquiatra, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Prioriza o cuidado mental humanizado, respeitando os pacientes e os ajudando a melhorar a própria qualidade de vida.










